Confira a reflexão e o convite do Pe. André Varisa, pároco da Paróquia Santo Expedito, em Santo Expedito do Sul, para a 24ª Romaria, além de toda a programação do evento.
“No coração do nosso tempo, onde tantas vozes disputam o valor da vida, ergue-se um sussurro antigo e sempre novo, a dignidade humana não nasce do que fazemos, mas do que somos. A recente Dignitas Infinita, promulgada com a aprovação do Papa Francisco, reacende essa verdade com clareza luminosa, lembrando que a dignidade não oscila conforme a utilidade, nem se curva diante da fragilidade. Ela permanece, como chama acesa, mesmo quando tudo ao redor parece apagar.
Desde as primeiras páginas da Escritura, o ser humano emerge como imagem e semelhança de Deus, portador de um sopro que não se reduz à matéria nem ao cálculo. Há no humano uma grandeza que não se negocia, um núcleo inviolável que resiste a toda tentativa de classificação. A razão reconhece essa nobreza como aquilo que há de mais elevado na ordem do ser, uma substância que subsiste em si mesma, não como objeto, mas como mistério. Por isso, nenhuma condição, seja a vida nascente, a velhice silenciosa ou a limitação da consciência, é capaz de apagar o valor inscrito no próprio existir.
Também o direito, quando fiel à sua vocação, inclina-se diante dessa verdade. A Declaração Universal dos Direitos Humanos proclama, logo em seu primeiro artigo, que todos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. A Constituição brasileira acolhe esse princípio como fundamento da República, reconhecendo que a dignidade não é concessão do Estado, mas realidade anterior a ele, que exige proteção absoluta. Nenhuma lógica de eficiência, nenhum critério de produtividade pode redefinir quem merece viver com respeito. Onde a dignidade é relativizada, o direito perde sua alma.
Ainda assim, surgem correntes que tentam medir o valor da pessoa pela capacidade de compreender, decidir ou produzir. Nesse horizonte estreito, o humano passa a valer pelo que consegue expressar, e não pelo que é. Mas o encontro com o outro rompe essa ilusão. O rosto que se apresenta, vulnerável e irrepetível, convoca a uma responsabilidade que antecede qualquer julgamento. Há um apelo silencioso que brota do simples fato de existir, um chamado que impede transformar vidas em números, corpos em objetos, histórias em descartáveis.
A Doutrina Social da Igreja insiste que a pessoa humana é o centro e o fim de toda realidade social. Nenhuma economia, nenhuma política, nenhuma cultura possui legitimidade se reduz o ser humano a instrumento. A dignidade é critério, medida e limite. Onde ela é ferida, tudo se desordena. Onde é respeitada, nasce a possibilidade de um mundo mais justo. A caridade, iluminada pela verdade, impede que o humano seja absorvido por estruturas frias, devolvendo-lhe o lugar de sujeito, nunca de coisa.
É nesse chão que a 24ª Romaria em Honra a Santo Expedito se transforma em profecia viva. Cada passo dos peregrinos é mais do que devoção, é denúncia contra tudo aquilo que compra, vende e descarta vidas. É anúncio de que cada pessoa carrega um valor infinito, impossível de ser reduzido a preço ou função. É testemunho de que o sagrado habita o humano, e que tocar a vida do outro exige reverência. A estrada torna-se púlpito, o cansaço torna-se oração, e o encontro torna-se compromisso.
Assim, entre fé e história, permanece uma certeza que não se dissolve, a dignidade humana não é prêmio para poucos, mas herança de todos. Guardá-la é mais do que um dever, é um ato de fidelidade ao próprio sentido de existir. Quando ela é honrada, o mundo respira esperança. Quando é ferida, toda a criação geme. E talvez seja na simplicidade de um povo que caminha, reza e acredita, que o infinito volte a tocar o humano, lembrando que ninguém, absolutamente ninguém, pode ser reduzido a coisa alguma.”
Banner e programação da 24ªRomaria em honra a Santo Expedoto – Santo Expedito do Sul/RS

Texto: Pe. Prof. Ddo. André Varisa
Referências
Bíblia Sagrada. (2002). Gênesis 1, 26-27. | Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. | Congregação para a Doutrina da Fé. (2024). Dignitas Infinita. Vaticano. | Nações Unidas. (1948). Declaração Universal dos Direitos Humanos. | Sarlet, I. W. (2007). A eficácia dos direitos fundamentais. Porto Alegre: Livraria do Advogado. | Tomás de Aquino. (2001). Suma Teológica. São Paulo: Loyola. | Levinas, E. (1980). Totalidade e Infinito. Lisboa: Edições 70.
